Educação como formação crítica
Ulpiano enfatiza que a memória não pode ser objeto de “resgate”, “pois ela não deve ser confundida com os suportes pelos quais indivíduos, grupos e sociedades constroem e continuamente reconstroem [...] uma auto-imagem de estabilidade e permanência” (MENESES, 2000, p. 93).
Meneses afirma que a memória é mutável e que além de ser um mecanismo de retenção e registro de informações, de conhecimento e de experiências, é também um mecanismo de esquecimento programado. Não nos lembramos de tudo.
“E se a memória se constrói filtrando e selecionando, ela pode também ser induzida, provocada. [...] a noção de que a memória aparece como enraizada no passado [...] é também falsa: a elaboração da memória se dá no presente e para responder a solicitações do presente” (MENESES, 2000, p. 93).
“Da mesma forma, a identidade não é uma essência, imanente e imutável, imune às transformações [...]” (MENESES, 2000, p. 93).
Meneses enfatiza que identidade e memória são ingredientes essenciais da interação social, “presentes em quase todos os seus domínios – e, por isso, não poderiam em hipótese alguma estar ausentes dos museus que pretendam dar conta dos aspectos fundamentais de uma sociedade vida, no presente ou no passado” (MENESES, 2000, p. 94).
Meneses afirma que a educação precisa ter como eixo a formação crítica e enfatiza que “é com a formação crítica que os museus deveriam comprometer-se ao trabalhar com as questões da identidade e da história” (MENESES, 2000, p. 95).
Conhecimento
Ulpiano enfatiza que a primeira tarefa educativa de um museu é ensinar como ele deve ser usado. “O museu não é uma instituição natural, mas criada, histórica, circunstancial. A exposição museológica não pode ser tomada como um enunciado universal e atemporal, auto-evidente, mas como um sistema linguístico que é preciso aprender: tal como aprendemos a linguagem falada, a linguagem escrita e linguagem visual [...]” (MENESES, 2000, p. 96).
Ulpiano ressalta que quanto maior o distanciamento entre museu e conhecimento, maior o distanciamento entre museu e educação. “E quanto menos o museu estiver envolvido (em diversos níveis de possibilidades) com a produção de conhecimento, mais se tornará um mero repassador de informação, sujeito a perder o controle de seu curso” (MENESES, 2000, p. 97).
Meneses afirma que seria indispensável que o museu se reconhecesse como um lugar mais de perguntas do que de respostas para desempenhar seu papel educacional de forma consciente e eficaz.
Educação pelo objeto
Ulpiano enfatiza que o museu finge ignorar duas verdades: “a primeira é que vivemos totalmente imersos em um mundo de coisas materiais” (MENESES, 2000, p. 98). E finalmente, os museus “ignoram que sua atuação, em qualquer quadrante – científico-documental, cultural e educacional – tem que ter alguma especificidade (MENESES, 2000, p. 98).
Ele afirma que “a especificidade do museu está precisamente naquilo que, ao lhe dar personalidade, distinguindo-o de outros instrumentos similares do campo simbólico, garante condições máximas de eficácia: o enfrentamento do universo das coisas materiais” (MENESES, 2000, p. 98).
Meneses faz então uma crítica aos museus sem acervo: “Museu sem acervo, assim, é como a mula sem cabeça: existe, garante-se, e chega a soltar fogo pelas ventas, espetacularmente. Embora a mula sem cabeça se preste a múltiplas utilidades, há coisas que só podem ser feitas por mulas – completas, a que não falte parte alguma da cabeça” (MENESES, 2000, p. 98-99).
Ulpiano enfatiza que nossos museus estão despreparados para dar conta da problemática da cultura material.
Ele ressalta que “o máximo que se tem chegado á falar sobre os objetos, não pelos objetos, o que é ainda mais gritante no caso dos museus históricos” (MENESES, 2000, p. 99).
Ulpiano enfatiza que “enquanto o museu não tiver domínio do conhecimento e da exploração da cultura material, sua atuação educacional será, no mínimo, incompleta; na maior parte das vezes e dependendo da natureza do museu, será mesmo deletéria” (MENESES, 2000, p. 99-100).
Educação e técnicas
“Quando o museu não sabe o que fazer, a tendência é refugiar-se no como fazer, buscando achego na tecnologia” (MENESES, 2000, p. 100).
Ulpiano ressalta que “a informatização dos museus é um problema grave e multiforme, que não pode ser tratado à ligeira” (MENESES, 2000, p. 100).
Ele sinaliza então questões que deveriam integrar uma agenda de reflexões sistemáticas sobre o futuro dos museus:
A primeira questão é que a informatização, no museu, está-se restringindo à sua virtualização [...]. A segunda é que a virtualização do museu não se apresenta como ampliação e potenciamento dos recursos de que dispõe o museu, mas como um patamar que torna obsoletos e exclui todos os demais. [...] A terceira questão, na esteira desta pretensão substitutiva, está na desmaterialização do universo físico, reduzido ao simulacro (MENESES, 2000, p. 100-101).
Conclusão
Ulpiano finaliza selecionando os seguintes pontos que os museus deveriam seguir para educar: crítica, parâmetros do conhecimento, especificidade na cultura material e subordinação das técnicas aos três critérios precedentes.